quarta-feira, 28 de maio de 2008

O Esquisito

É estranho como existem tantas e tão diferentes maneiras de amar, de sentir. De odiar e de desprezar. Para quê complicar? Quando desejamos, para quê fazer jogos e dar voltas e voltas e voltas, sem dizer absolutamente nada? Talvez não haja mesmo nada a dizer. Às vezes as palavras são tão escusadas…mas dão nos invariavelmente um sentimento de conforto e segurança. Um gesto pode conter todas as palavras que gostaríamos de dizer. Ou de ouvir. Mas a segurança de ver um par lábios e uma língua a mexer para formar uma frase dirigida a nós não tem preço. Eu sempre pensei assim. “Às vezes ser diferente é bom”, mas a diferença rouba-nos o chão. Faz o coração bater mais depressa. A pele arrepia-se perante a expectativa do desconhecido. Mordemos o lábio e esperamos o melhor.
O diferente excita-nos, faz nos querer muito. Faz nos querer mais e mais. Faz nos ficar a olhar para o branco infinito de um tecto, a tentar descortinar aquele mistério, aquela situação imprevisível, em que já não sabemos se perdemos ou ganhamos. À noite, sem as distracções do dia-a-dia, perdemo-nos nos labirintos dos sonhos à procura de satisfação para os nossos desejos profundos e fortes, que nunca saberemos se podem ser satisfeitos fora da protecção da nossa almofada. O diferente rouba-nos a atenção, desfaz a perfeição nas tarefas diárias, destrói certezas e confortos. Isso faz-nos viver. Mantém o corpo e a mente a funcionar, como máquinas bem oleadas.

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