sábado, 16 de maio de 2009
Surpresas
Para pessoas ingénuas como eu a surpresa actua com 10x mais eficácia. Às vezes tiram-me o chão debaixo dos pés, outras vezes projectam-me para as nuvens. Nenhuma dessas situações é boa a longo prazo...
Fica o aviso: cuidado com os kinders surpresa.
sábado, 2 de maio de 2009
Drácula
É impossível resistir mais. Estou já dentro do quarto, a observar-te dum canto mais escuro. O cheiro delicioso do teu sangue é a maior tentação que experimentei em séculos de existência. Os teus caracóis, que enchem o travesseiro, emanam o cheiro da tua pele, de ti, e oh, que essência irresistivel.
Tu já te apercebeste da minha presença, não é? Então de que serve prolongar a tortura? Vem a mim, meu cordeiro, não, não chores, em breve os teus olhos marejados de lágrimas vão acordar para um novo mundo, aquele que está para lá da existência mortal, que não tem as correntes da vida humana. A eternidade aguarda-te. E eu também.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Mina
Abro os braços para o negro do tecto, esperando que me tomes como tua, arranques minha alma desta carne morta. Injecta vida no meu moribundo coração, transforma-o num tambor ensurdecedor, vigoroso, para logo a seguir parar.
Sou uma traça atraida pelo teu brilho. E sou repelida pela tua escuridão, pela podridão que mora no teu coração.
Chega de jogos, aqui estou eu, indefesa e frágil. Dá-me a calma e húmida misericórdia.
domingo, 26 de outubro de 2008
Carta de amor para ele.
Sei que sou difícil, e confusa. E muito insatisfeita, e quero sempre mais, e melhor, e diferente. Sou uma besta, e uma chata, e desleixada, e às vezes até te ignoro. Mas não é por mal... Eu sou assim, e não sei ser de outra maneira. Peço que me perdoes por tudo, e que vejas além disso.
Tu és o meu amigo, o amante, a minha família, a minha casa onde eu posso regressar todos os dias, é no teu peito que eu me sinto equilibrada e inteira. Tu és meu. E eu, eu sou tua.
És tu que me acaricias, me amas, és só tu que me fazes chorar depois do orgasmo, porque nessa altura toco uma luz que só existe quando estás comigo. Porque nessa altura sinto-me verdadeiramente completa. Contigo.
O que nós temos é só nosso, e ninguém o entende. Nós não temos nomes românticos, nem alcunhas fofinhas. Nós não andamos sempre colados, e nós não precisamos disso. Estamos tão acima de tudo isso...tão para lá do óbvio. A nossa intimidade é verdadeira, é do coração, e é mais forte do que tudo o que as palavras e acções possam fazer ou mostrar.
“Não vão durar nem um mês”. Ainda bem que não lhes demos ouvidos.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
chuva de mudança
O cheiro da terra molhada é a primeira coisa que sinto quando abro a porta. É também uma das coisas mais deliciosas para o meu nariz sensível. Traz uma sensação de esperança, quase que se ouve a vida a pulsar no ventre da terra. A mudança. A chuva escorre como sangue, enchendo todos os espaços vazios, suprimindo o vácuo, criando vida e caos e ordem. Tudo ao mesmo tempo. A natureza a desbravar caminho por entre os cogumelos da civilização. As sementes de promessas de futuro a esperar pacientemente pelo Sol, para despontarem e virarem o mundo de pernas para o ar. Daqui a uns meses a terra cobre-se de flores e bichos, e a vida segue o seu curso. Como tem de ser. Está tudo destinado.
Entre a morte e a vida, o caos e a ordem, ying e yang, homem e mulher, o mundo gira sem que demos por isso. A dualidade rege o universo. E eu sinto tudo isso, de olhos fechados, entre a multidão.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Pedaços
O Esquisito
O diferente excita-nos, faz nos querer muito. Faz nos querer mais e mais. Faz nos ficar a olhar para o branco infinito de um tecto, a tentar descortinar aquele mistério, aquela situação imprevisível, em que já não sabemos se perdemos ou ganhamos. À noite, sem as distracções do dia-a-dia, perdemo-nos nos labirintos dos sonhos à procura de satisfação para os nossos desejos profundos e fortes, que nunca saberemos se podem ser satisfeitos fora da protecção da nossa almofada. O diferente rouba-nos a atenção, desfaz a perfeição nas tarefas diárias, destrói certezas e confortos. Isso faz-nos viver. Mantém o corpo e a mente a funcionar, como máquinas bem oleadas.