sábado, 16 de maio de 2009

Surpresas

No espaço de poucos dias fui surpreendida uma data de vezes. Há as surpresas tipo "faca no pescoço", as surpresas tipo "a caixa dentro da caixa dentro da caixa", as gomas azedas por fora e doces por dentro, as gomas doces por fora e azedas por dentro, e outras surpresas que nada têm de gomas, caixas ou facas.
Para pessoas ingénuas como eu a surpresa actua com 10x mais eficácia. Às vezes tiram-me o chão debaixo dos pés, outras vezes projectam-me para as nuvens. Nenhuma dessas situações é boa a longo prazo...
Fica o aviso: cuidado com os kinders surpresa.

sábado, 2 de maio de 2009

Drácula

Observo-te, do lado de fora da janela do teu quarto. A pele translúcida, que mostra as veias palpitantes, a cor frutada das maçãs do rosto que adoro, os dedos finos e esguios de quem toca a vida com a habilidade de um artista, o peito que sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce, com a respiração calma da presa que ignora o perigo... Oh, doce tentação! Com que forças posso eu segurar os meus músculos que oscilam com o desejo de te destruir?! Com que poder posso eu negar ao meu coração a vontade de te ter a meu lado por toda a eternidade? Como posso eu evitar a perdição da tua alma virgem e pura? É pedir demasiado a um homem que deixou há muito de ser Homem, que é hoje um monstro, onde habitam apenas os desejos de poder, os vicios mundanos, e a sede insaciável. Essa, nunca me abandona. Mas tu, pequena mortal, tu trouxeste calor ao meu coração morto, tu inspiraste-me com a tua pessoa, um desejo mais que carnal, mais que luxurioso, mais que tudo!
É impossível resistir mais. Estou já dentro do quarto, a observar-te dum canto mais escuro. O cheiro delicioso do teu sangue é a maior tentação que experimentei em séculos de existência. Os teus caracóis, que enchem o travesseiro, emanam o cheiro da tua pele, de ti, e oh, que essência irresistivel.
Tu já te apercebeste da minha presença, não é? Então de que serve prolongar a tortura? Vem a mim, meu cordeiro, não, não chores, em breve os teus olhos marejados de lágrimas vão acordar para um novo mundo, aquele que está para lá da existência mortal, que não tem as correntes da vida humana. A eternidade aguarda-te. E eu também.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Mina

Vejo-te no negro do tecto. Seduzes-me, tua silhueta dançante nas sombras que nascem no chão. És tudo aquilo que não quero, a minha pele arrepia-se de asco pela tua deliciosa tentação. Sinto o teu hálito, quente, na curva do pescoço. Sei que falta já muito pouco. A tortura vai durar apenas a eternidade de um beijo, e depois, apenas escuridão.
Abro os braços para o negro do tecto, esperando que me tomes como tua, arranques minha alma desta carne morta. Injecta vida no meu moribundo coração, transforma-o num tambor ensurdecedor, vigoroso, para logo a seguir parar.
Sou uma traça atraida pelo teu brilho. E sou repelida pela tua escuridão, pela podridão que mora no teu coração.
Chega de jogos, aqui estou eu, indefesa e frágil. Dá-me a calma e húmida misericórdia.

domingo, 26 de outubro de 2008

Carta de amor para ele.

Sei que sou difícil, e confusa. E muito insatisfeita, e quero sempre mais, e melhor, e diferente. Sou uma besta, e uma chata, e desleixada, e às vezes até te ignoro. Mas não é por mal... Eu sou assim, e não sei ser de outra maneira. Peço que me perdoes por tudo, e que vejas além disso.

Tu és o meu amigo, o amante, a minha família, a minha casa onde eu posso regressar todos os dias, é no teu peito que eu me sinto equilibrada e inteira. Tu és meu. E eu, eu sou tua.

És tu que me acaricias, me amas, és só tu que me fazes chorar depois do orgasmo, porque nessa altura toco uma luz que só existe quando estás comigo. Porque nessa altura sinto-me verdadeiramente completa. Contigo.

O que nós temos é só nosso, e ninguém o entende. Nós não temos nomes românticos, nem alcunhas fofinhas. Nós não andamos sempre colados, e nós não precisamos disso. Estamos tão acima de tudo isso...tão para lá do óbvio. A nossa intimidade é verdadeira,  é do coração, e é mais forte do que tudo o que as palavras e acções possam fazer ou mostrar.

 

 “Não vão durar nem um mês”. Ainda bem que não lhes demos ouvidos. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

chuva de mudança

O cheiro da terra molhada é a primeira coisa que sinto quando abro a porta. É também uma das coisas mais deliciosas para o meu nariz sensível. Traz uma sensação de esperança, quase que se ouve a vida a pulsar no ventre da terra. A mudança. A chuva escorre como sangue, enchendo todos os espaços vazios, suprimindo o vácuo,  criando vida e caos e ordem. Tudo ao mesmo tempo. A natureza a desbravar caminho por entre os cogumelos da civilização. As sementes de promessas de futuro a esperar pacientemente pelo Sol, para despontarem e virarem o mundo de pernas para o ar. Daqui a uns meses a terra cobre-se de flores e bichos, e a vida segue o seu curso. Como tem de ser. Está tudo destinado.

Entre a morte e a vida, o caos e a ordem, ying e yang, homem e mulher, o mundo gira sem que demos por isso. A dualidade rege o universo. E eu sinto tudo isso, de olhos fechados, entre a multidão.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pedaços

O cabelo desalinhado, as cores gastas, sem maquilhagem. Todo o tempo do mundo para pensar demasiado, e estou embrulhada em sarilhos. Sempre que me questiono, as probabilidades de algo correr mal são altíssimas. Sede de mais, e uma insatisfação constante, ora aí está algo que me define. Manter as coisas simples é por vezes o mais complicado, mas é tão tentador… Ser transparente, ignorar os jogos, mostrar o que sinto, raiva, desejo, felicidade. São os sentimentos que mantêm o coração vivo. E eu faço questão de os viver, e de os mostrar. Está no pacote. E quem leva o pacote tem de o aceitar no seu todo. É uma pena que não se vendam seres humanos a retalho… uma inteligência aqui, uma sensibilidade ali, e era perfeito. Mas há que viver com o que temos, que é invariavelmente imperfeito.

O Esquisito

É estranho como existem tantas e tão diferentes maneiras de amar, de sentir. De odiar e de desprezar. Para quê complicar? Quando desejamos, para quê fazer jogos e dar voltas e voltas e voltas, sem dizer absolutamente nada? Talvez não haja mesmo nada a dizer. Às vezes as palavras são tão escusadas…mas dão nos invariavelmente um sentimento de conforto e segurança. Um gesto pode conter todas as palavras que gostaríamos de dizer. Ou de ouvir. Mas a segurança de ver um par lábios e uma língua a mexer para formar uma frase dirigida a nós não tem preço. Eu sempre pensei assim. “Às vezes ser diferente é bom”, mas a diferença rouba-nos o chão. Faz o coração bater mais depressa. A pele arrepia-se perante a expectativa do desconhecido. Mordemos o lábio e esperamos o melhor.
O diferente excita-nos, faz nos querer muito. Faz nos querer mais e mais. Faz nos ficar a olhar para o branco infinito de um tecto, a tentar descortinar aquele mistério, aquela situação imprevisível, em que já não sabemos se perdemos ou ganhamos. À noite, sem as distracções do dia-a-dia, perdemo-nos nos labirintos dos sonhos à procura de satisfação para os nossos desejos profundos e fortes, que nunca saberemos se podem ser satisfeitos fora da protecção da nossa almofada. O diferente rouba-nos a atenção, desfaz a perfeição nas tarefas diárias, destrói certezas e confortos. Isso faz-nos viver. Mantém o corpo e a mente a funcionar, como máquinas bem oleadas.